O dia em que a minha filha fugiu de casa

Ok, parece muito melodramático e na verdade não foi assim tão grave, mas por momentos pareceu-me o fim do mundo.

Ontem, na hora de sair de casa ( que é sempre um momento crítico do dia, como expliquei aqui) houve respostas tortas e correria. A minha mais velha, cheia de mimo a imitar um gatinho na hora de despachar levou uma resposta mais torta e amuou. Enquanto chamava o elevador e reunia sacos e mochilas, sapatos para a mais pequena e chaves de casa, desapareceu. Procurei em toda a casa, fui até ao andar de cima, gritei por ela e nada. Aquele tempo em que o elevador faz meia dúzia de andares pareceu interminável. Quando chegava ao rés do chão ouvi um vizinho perguntar “a tua mãe está à tua procura, não a ouviste gritar?” – o que me deu um enorme descanso ainda que um bocadinho envergonhado. Ali estava ela, e  aí caiu a minha fúria e angústia, como uma bomba. Prometi um mês sem ver televisão – a fúria a falar; perguntei se não percebia o susto que me tinha pregado – a angústia a falar. Falei da Dory – ela tinha ficado tão impressionada com a situação da peixinha que perdeu os pais. Como se calhar já perceberam, eu falei, falei e ela pouco falou, foi um monólogo aos gritos de que não me orgulho. Eu percebi que ela não tinha ideia do efeito que ia causar, que não foi com essa intenção que saiu. Foi um “fui andando” escadas abaixo, sem pensar muito no assunto.

Tenho um flashback de, se calhar com a mesma idade, ter ido brincar para casa de uma vizinha sem me lembrar de avisar e dos meus pais terem ficado furiosos comigo.

Separamo-nos zangadas e tristes. Ela contou que chorou, eu também. Não é assim que quero ser mãe.

No fim do dia, quando nos reencontramos ela pediu desculpa “a maior desculpa de sempre”, eu também pedi.

Ficou a regra – não se podem afastar sem avisar – e a decisão minha de ter paciência e não minimizar os seus pedidos de mimo.

As manhãs continuam a ser terreno minado, há que armar-nos de MUITA paciência e  preparação. Mas às vezes é preciso passarmos por um momento mau para crescermos por dentro e aprendermos com ele. Não sei por quanto tempo aprendi, mas sei o que me custou este dia, e sei o bom que foi fazer as pazes e o bem que soube o nosso abraço apertado.

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